sábado, 12 de julho de 2008

DEDICADO À MORIAE (QUE ME TROUXE PARA ESTAS ANDANÇAS...)

Imagem daqui
"O Portugal de que falava Agostinho da Silva existe! Descobri-o na semana em que o povo português desceu em massa à rua, não para defender os seus interesses próximos, mas para despertar o mundo para as atrocidades que se estavam a cometer em Timor. Quando um povo se levanta e se une, de mãos dadas, formando um cordão humano de quilómetros, o milagre deu-se, o milagre humano da solidariedade, capaz de submeter, pelo menos temporariamente, todos os interesses políticos e económicos dos grandes do mundo.
Não foi folclore. Foi um movimento que nasceu na alma, nas entranhas de Portugal, tão espantoso, como uma energia tão poderosa que não poderia deixar de avassalar o mundo e de calar, por vergonha, os mais renitentes. Como o Professor, assim lhe chamavam os amigos, deveria ter gostado de cá estar para ver aquele gesto redentor de todos os erros cometidos por Portugal nos descobrimentos e na descolonização!
Nesses dias de Setembro tive um orgulho novo de ser portuguesa, de partilhar do sangue e da alma de toda essa gente que deu as mãos em defesa de um povo longínquo, a que a história indissoluvelmente o ligou. A sua única arma, a sua única força, era a da unanimidade no pensamento e no objectivo. A coisa que essa gente solidária viveu foi o mais difícil que há de conseguir e que é pôr todo um povo de acordo numa causa. Para lá de todas as diferenças de partido, de credo, de opinião. De mãos dadas! Uma corrente humana mais forte do que todas as armas e todos os interesses, porque uníssona na força do Amor.
Esse amor produziu outro milagre, que foi o casamento, a união de dois povos, que se apresentam no plano simbólico como dois sóis. Timor Lorosae, a terra do Sol-Nascente. Portugal, que no ideário dos reis fundadores foi assumido como Porto de Graal, é a terra do Sol-Poente, o extremo ocidente, a terra onde o Sol se põe no mar. Que mundo novo pode gerar a união de dois sóis?
Foi nesses dias que verifiquei, finalmente, em experiência vivida, que o Portugal de que o Professor Agostinho da Silva falava existe. E que esse é que é o verdadeiro Portugal, que eu já tinha tido o privilégio de ver uma amostra no 25 de Abril, quando os cravos floriram nos canos das espingardas. E eu estou viva, eu sou de uma geração que pôde assistir a estes dois milagres. Eu pertenço a este povo. E como sinto isto como uma honra! Como me reconcilio com Portugal e com os portugueses."
Antónia de Sousa, O Império Acabou. E Agora?
Querida M., escolhi este excerto (introdutório) do referido livro (em que autora traduz uma longa, longa entrevista que fez a Agostinho da Silva) para recordar esse breve lapso de tempo em que qualquer coisa de muito forte se cumpriu e para to oferecer, porque continuas acérrima defensora da causa! Chegaremos nós alguma vez a saber o quê de concreto se cumpriu, nessa altura?
Eu também lá andei (nunca to disse ainda...), à porta da embaixada suja, da sede da ONU, num cordão em que todos estávamos suspensos, se se iria unir (que nó no estômago...), a lançar flores ao rio, vestida de branco, a comer febras assadas altas horas da noite nas avenidas de Lisboa, a cantar com os alunos no pátio da escola "Ita Timor..." (lembro ainda a música, já não a letra...), a comprar megafones para restituir a voz a quem a ia perdendo porque tão longe de casa...
Nunca to tinha dito antes. E sabes porquê? Porque após uma bandeira que se hasteou no ar, eu como que me desvinculei... como se tudo tivesse ficado resolvido ali, naquele momento, naquele lugar... Que engano atroz!







Esta foi, simultaneamente, uma forma de relembrar o Homem que me lembrou quais as palavras que são o meu lema de vida: "E pois que viver me é excelente, cada vez gosto mais de menos gente."

1 comentário:

Moriae disse...

Hurtiga,

não tenho palavras (raro) ... é uma honra ter-te conhecido, ser privilegiada com a tua dedicação.

Pois não sabia ... Pois Timor-Leste precisa, de modo diferente do ano que referes, da nossa mais genuína e desinteressada solidariedade!

Na altura, eu não participei activamente. Percursos de vida ... uma época complicada de vida mas, não mais deixarei que épocas difíceis me impeçam de tentar, pelo menos, mostrar e lutar por justiça, humanidade e dar o meu melhor, seja ele qual for!

E não te desvinculaste ... pelo teor do que escreves, estamos mais uma vez próximas, em uma causa que poderá levar anos ... até ... o caminho faz-se caminhando. A vida e a história contam ciclos - segundo dizem!

Muito obrigada, querida Hurtiga.
Contigo,
M.

[Afinal num fiquei totalmente sem palavras ... sensibilizada, de todo!]